José, esposo e pai (Padre Mauro Negro, Oblato de São José) (Domingo 05)

José, esposo e pai

Mauro Negro, Oblato de São José, Presbítero

São José é um personagem sobre o qual existem devoções e práticas, mas que não é realmente conhecido por grande parte do povo católico. Embora ele tenha presença marcante nos Evangelhos, muitos pensam que ele é somente alguém que esteve em silêncio. Mas, para falar é preciso somente usar palavras?

Alguns pensam que José é o homem que sonha, e que para sonhar, dorme. Bonito ver José adormecido, sonhando com a vida. Mas, o Evangelho afirma que José, ao despertar do sono, agiu conforme o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu em casa sua mulher (Mateus 1,24); Ele se levantou, tomou o menino e sua mãe, durante a noite, e partiu para o Egito (2,14); Ele se levantou, tomou o menino e sua mãe e entrou na terra de Israel (2,21); Tendo recebido um aviso em sonho, partiu para a região da Galileia… (2,22).

Já outros pensam que José era um velhinho, meio acabado, que tomou Maria como esposa, mas era mais um bisavô para ela. Interessante que esta é uma imagem muito com um para José, justamente para defender a virgindade de Maria! Parece que dois jovens, realmente tomados pela graça de Deus, não teriam decisão e forças para viver um projeto de vida diferente! Então, José é um ancião, sem futuro. Depois, as incompreensões continuam. Nos Evangelhos, Jesus é frequentemente chamado de “filho de José”. Até Maria, em Lucas 2,48, indica José como pai de Jesus!

E por que não se fala, normalmente, “José, pai de Jesus”? Ou vem aquelas explicações curiosas: José, “pai adotivo”, “pai eleito”, “pai substitutivo”. E até José, “pai putativo”, o que significa “por substituição”. Por que não afirmar, de modo simples e direto: José, pai de Jesus? Pronto! José é o pai verdadeiro de Jesus. É o esposo de Maria, e ela é sua esposa, pois é assim que o Evangelho afirma em Mateus 1,19 e 20, em Lucas 1,27 e 2,5. Eles são identificados como pais de Jesus em Lucas 2,33 e 41. É muito fácil fixar ideias inadequadas a respeito de José, tendo apenas devoção, práticas religiosas e até folclóricas a seu respeito. Mas o Papa Francisco, no ano de 2021, convocou o mundo todo a ter uma abordagem mais intensa sobre São José.

Na Carta apostólica Patris Corde, que significa “Com coração de pai”, o Papa afirma traços de intensa importância sobre José: ele é “pai amado”, “pai na ternura”, “pai na obediência”, “pai no acolhimento”, “pai com coragem criativa”, “pai trabalhador” e “pai na sombra”. A imagem múltipla de pai, aplicada a São José, oferece caminhos para a crise de paternidade que o mundo vive, com a perda da própria identidade, o desânimo perante a história pessoal, o descrédito e a desesperança pela vida e os valores da Fé.

Na realidade, há um desconhecimento de José na sua essência e no seu significado. Ocorre que José é um filho de Israel, um israelita do primeiro século. E aqui está a raiz do problema: nós não somos do povo de Israel, não somos judeus, e muito menos estamos no primeiro século! Por isso, temos dificuldades em compreender o que está ao redor de José e qual é a sua essência: ele é o Justo, que herdou as promessas feitas aos pais, os Patriarcas.

Além disso, ele é da descendência de Davi, o que lhe dá a herança do Messias. E isso forma o significado de José: ele transmite a Jesus a pertença ao Povo de Israel, sendo uma “ponte” que o liga aos Pais do Povo Eleito, isso é, aos Patriarcas. Assim ele próprio é um Patriarca. Ele liga Jesus aos costumes e à identidade deste Povo. Ele liga Jesus às tradições e heranças da Realeza de Israel, pois é da família do rei Davi. E Jesus será aclamado como “Filho de Davi.

Estes dados sobre José e sua ação decisiva nos Evangelhos fazem com que Jesus seja reconhecido como seu filho. É assim que lemos em algumas passagens. Uma delas, de modo significativo, é a de João 6,42. Depois do episódio dos pães, quando Jesus alimenta milhares de pessoas, Ele tem questionada sua identidade: E diziam: “Esse não é Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? Como diz agora: ‘Eu desci do céu’?!”

É exatamente o fato de ser filho de José, e através dele herdeiro de Abraão e de Davi, que Jesus pode assumir a identidade que aos poucos vai demonstrando. Isso é importante no conhecimento de José. E isso devemos cultivar a difundir. Que o Ano de São José, neste 2021, em meio a uma desafiadora pandemia, nos ensine a enfrentar as crises e a supera-las, com criatividade, decisão e ousadia. Como José, o Justo Filho de Davi, que foi proativo na resposta de sua vocação. É ele o esposo de Maria e o pai verdadeiro de Jesus.

Pe. Mauro Negro, Oblato de São José

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